sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sentindo escolhas humanas (Ou com humanos? Ou de humanos?)

Não, seria mentira que escreveria assim. Mas poderia dizer que gostaria de ter escrito isso. E assim:

"Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que 'normalidade' é uma ilusão imbecil e estéril."

Oscar Wilde

E se a escolha não for de amigos? Quem pode me dizer o que não consigo dizer? Um dia descubro... Ou quem sabe escrevo.
Mas, se escrevo, conseguiria fugir aos meus paradoxos clichês de dizer o indizível ou de escrever do sentido? Alguns conseguem. Ou pelo menos eu sinto que conseguem comigo. Porque eu sinto com os escritos deles. E se sinto, é porque eles conseguem. Conseguem tocar alguns (ao menos a mim) com palavras escritas. Eles sentem escrevendo as palavras escritas, certamente. E eu sinto as palavras escritas. São sentidos diferentes. Mas são sentidos. Será esse o meu talendo: o de sentir-lendo? Não. Talento mesmo é só o completo escrever-e-ler-sentindo. Esse sim seria o escritor "talentoso". Mas eu não sou escritor, só sei mesmo ler-sentindo. Seria meio escritor? ou seja, leitor?
Não sei se sei escrever-sentindo para os outros. Isso só os outros podem sentir. Nunca poderei sentir os sentidos dos outros. Só sei que, ao me ler, eu também me sinto, ou simplesmente sinto. Mas se esse seria o meu dom. Valeria eu por mim mesmo pensar se sou um escritor? Nossa! Eu acho que acabo de sentir a autopoiese (Varela). Não quero mais representar aqui. Quero apenas sentir e escrever sentindo, já que eu sinto o que escrevo... Mas como sentir com a linguagem escrita?
A essa doxa que carrego. E mais uns paradoxos (na verdade, talvez sejam apenas de duas ordens os paradoxos: não-representar e sentir)...
Como escrever sobre uma coisa? Sim, porque sentir é uma coisa. Como escrever sobre uma coisa para duas outras coisas diferentes: ler-sentir e escrever-sentir, e não cair nesses clichês representacionais. Clichês que parecem paradoxos que não são paradoxos, mas sim realidades. Mas se ler-sentir e escrever-sentir são duas coisas diferentes, como podem fazer parte de uma outra coisa? Essa outra coisa é maior, o sentir, e só existe mesmo enquanto coisa, por ser apenas o virtual, e, portanto, o real deleuziano. Sim, mas não fujindo a pergunta: como uma coisa (sentir) pode se misturar com outras duas coisas (ler-sentir e escrever-sentir) que parecem fazer parte da coisa-de-sentir? Resolve apenas dizer que a coisa-de-sentir é maior? E os outros fazem parte do diferente menor daquele maior? E que a mistura homogênea não pode ser separada por um processo de liquefação fracionada (gases), destilação fracionada (líquidos) ou destilação simples (sólidos-líquido)? Não me adianta. Eu nem sei ver como coisas separadas essas misturas homogêneas. Não sei também se sei fugir do paradoxo, nem sei se sei dizer dos sentidos.
Aliás, mentira! Eu sei sim. Sei que não sei fugir de paradoxos. Mas sei que sei sentir (só não sei se sei sentir no escrever-sentir em alteridade). Interessenate pensar que só eu posso sentir esse problema do jeito que eu sinto. Acho que os meus sentires é o que tenho de mais meu. Ninguém pode me dizer que algo não doeu em mim, ou que achei algo bonito ou feio. E se o faz, faz levianamente ou autoritariamente. Porque o sentir é meu e ninguém tira, rouba ou sente por mim. Não podem!
Está mais bem localizado o problema agora? Parece que falamos a mesma língua? Dá para "enganar", dizendo que utilizamos os mesmos códigos para explicar o problema que é só meu? Sim, só meu, porque só eu posso sentir esse jeito de sentir.
Já a amava, mas adorei mais minha amiga por ela ter me dito: "Thiago, nunca achei que fosse ficar tão feliz por ter um problema". E eu: "Gabi, teu problema está tão bem recortado. Tão bonito. Manda para mim. Vai me servir de exemplo. Vou re-escrever meu projeto". Problema bem recortado? Bonito? Probelma servindo de exemplo? - é meu círculo vicioso, da minha autopoiese - trata apenas dos meu sentires.
Acho que agora voltaria para os paradoxos não-representacionais e de sentires, para tentar dizer que não é paradoxo para mim, porque eu sinto isso. Juro. E como um terceiro pode saber? Não pode. Só eu posso. Ou nem eu posso saber, mas somente posso sentir. Mas vou parar por aqui para não "arranjar" o mesmo problema em outros cantos. Cantos sim, porque aqui não se trata de território, mas dos cantos, das quinas, das esquinas. Daqueles cruzamentos que não é só de um, mas de alguns ou de milhares, só depende dos olhos de cada um, da visão que escolher (bidimendional? tridimensional? Raio-X? Ulta-violeta?), das incálculáveis mediações que a pessoa pode estar sentindo etc.
Ok, confesso meu crime (palavra pesada para quem se graduou em Direito). Mas, para mim, é esse o peso que tem eu passar quase uma semana enrolando uma transcrição. É meu sentir-lento que continua enrolando e crendo ter agora motivos de amor ou não-amor sem o milagre do esquecimento... Preciso mesmo do esquecimento para suportar, como diz Bergson @.@

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